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O desafio do chefão

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Por Lemyr Martins
Imagem: Photo 4

Em matéria de pilotos da Fórmula 1, a preferência pode variar entre o estilo fogoso do campeão Kimi Raikonen, o mais técnico de Fernando Alonso ou a regularidade de Lewis Hamilton. Mas, se há uma unanimidade na categoria, é Ross Brawn, o homem encarregado de tirar a Honda do fiasco competitivo e transformar seu colosso técnico-burocrático numa equipe de ponta, a partir de 2008. Para começar, esse inglês de 53 anos tem um perfil técnico pouco comum. Brawn cursou engenharia no United Kingdom Atomic Energy, mas a paixão pelas corridas o levou a trabalhar como operador de torno na Williams, passando a mecânico e, em 1979, tornando-se chefe de aerodinâmica e gerente de desenvolvimento na Williams. Tornou-se projetista-chefe na Arrows em 1986, passou pela divisão de carros esporte da Jaguar Racing em 1989 e voltou à F-1 já como diretor técnico da Benetton, em 1991, levando a escuderia italiana de coadjuvante a time campeão. Um sucesso que dividiu com o projetista Rory Byrne e que deu o bi a Michael Schumacher em 1994-1995 e a aura de grande gestor a Flavio Briatore.

Ross Brawn tornou-se um dos engenheiros mais cobiçados do circo, na ciência de projetar carros e definir táticas de corrida. Uma especialidade na F-1 em que a procura é muito maior que a oferta. Tanto assim que, quando Michael Schumacher saiu da Benetton para a Ferrari, em 1996, estava explícita a companhia de Brawn, fato que ocorreu um ano depois, com Rory Byrne a reboque.

Pobre equipe rica
O sucesso da dupla Brawn-Schumi é conhecido. Uma parceria que tirou a Ferrari do jejum de títulos de duas décadas para conquistar a mais longa hegemonia na F-1, com seis títulos de Construtores e o pentacampeonato de Schumi, de 2000 a 2004. Com esse retrospecto, era natural que Ross Brawn fosse o nome que a Honda buscava para tentar virar um jogo de insucessos, desde que o time nipônico retornou à F-1 pela compra da escuderia BAR (British-America Racing) em 2005.

Na verdade, a crise competitiva da Honda era a carência de um grande profissional. Uma autoridade que viesse para amarrar todas as pontas da maçaroca técnico-funcional da escuderia e gastar bem os 850 milhões de dólares que a montadora destina anualmente à F-1. Enfim, Ross Brawn entra para acabar com a penúria competitiva de uma equipe rica que não foi além de 6 pontos em 2007 (a Ferrari marcou 204), fechando na oitava colocação.

Brawn, além de chefe de equipe, terá controle total da área técnica da Honda, carente de um líder desde a saída de Geoff Willis, responsável pelo carro razoável de 2006 e substituído por Shuhei Nakamoto, que pagou o vexame de aferir a aerodinâmica do modelo 2007 num túnel de vento descalibrado, denunciado por Rubinho Barrichello. Nick Fry, o diretor executivo, foi o encarregado de sondar Brawn, assim que o engenheiro anunciou, em setembro de 2006, que se retirava da Ferrari para um ano de férias. O primeiro contato de Fry com Brawn aconteceu em abril. Brawn estava disposto a aceitar outro desafio, descartando a volta a Maranello, no início de outubro. Fry, no entanto, sabia que a Honda não estava só na empreitada.

A Toyota e a Red Bull também estavam no jogo. A opção de Brawn - pelo menos na informação de Nick Fry - deveu-se a sua admiração pela competitividade dos motores Honda, vencedores de cinco títulos com Williams e McLaren, e pelo potencial que se encontra adormecido na escuderia nipônica. Sem falar no valor - não revelado - do contrato de três anos e na pressão da mulher, Jean, e das filhas, Helen e Any, que preferem viver na Inglaterra, não na Itália.

"Não foi difícil me decidir pela Honda", disse Brawn, em 12 de novembro, ao assinar o contrato. Um acordo que tornou Fry o grande vencedor do episódio, pois, além de derrotar a concorrência, garantiu o emprego de diretor executivo, que esteve a perigo. E como Brawn encara o desafio? Ele sabe que a Honda é mais que um gigante adormecido: é uma estrutura emperrada. Um monstro que decidiu encarar: "Tenho ciência do patrimônio que a Honda possui. Também sei que ela conhece as dificuldades com as quais teremos que competir e reconheço seu compromisso com os técnicos e suas necessidades de ter êxito na Fórmula 1. Se não tivermos sucesso, será por nossa culpa, pois a Honda não faltará com os recursos".

Pressão no limite
Claro que não será lógico esperar que a Honda vença o título de construtores no primeiro ano com Brawn. Schumacher, que garante que o engenheiro "tem um supercérebro", alerta que ele não tem o dom de fazer milagres: "Brawn é a pessoa certa que a Honda busca, mas a virada leva tempo". Porém avisa: "Tenho absoluta certeza de que Ross vai pressionar todos os técnicos ao limite máximo, para conseguir alguns resultados imediatos".

E talvez a ausência de Schumi seja a primeira dificuldade que Brawn vá enfrentar para desenvolver o novo protótipo. Mas Jenson Button e Rubinho Barrichello garantem que estão prontos e entusiasmados para colaborar com o novo chefe. Button, que estava pensando em mudar de time, agora ganhou sobrevida na Honda. Ele sabe que o engenheiro vai fazer uma grande diferença na equipe. "Afinal, ele já fez esse trabalho antes", disse o piloto britânico. Já Rubinho volta a sonhar. Ele conhece bem Ross Brawn e lembra que, em suas nove vitórias na F-1, esteve sob o comando do inglês.

Brawn é recíproco e massageia sua dupla de pilotos, garantindo que ambos só precisam de um carro competitivo para mostrar seu potencial. Uma máquina que já está na cabeça do engenheiro e que tem muita chance de ser um projeto feliz, naturalmente por seguir a linhagem de seus projetos anteriores. Uma possibilidade que já despertou reação na Ferrari, que anunciou que está pronta a apresentar uma queixa contra Ross Brawn à FIA se ele usar suas idéias e projetos técnicos na Honda. Portanto, Brawn está proibido de copiar Brawn.

Mentes que brilham
Ross Brawn fez história na F-1. Esse inglês nascido em 1954, em Manchester, ganhou até o título de cavaleiro britânico pelos serviços prestados ao esporte a motor. Mas ele não foi o primeiro astro dos bastidores. A F-1 já foi povoada por outros gênios nestes seus 58 anos de existência.

John Cooper: foi o primeiro a revolucionar a aerodinâmica, ao passar o motor frontal para a traseira dos monopostos, em 1968.
Ron Tauranac: ele é o T da sigla BT da Brabham. Foi importante na transição dos charutinhos para o moderno F-1 dos anos 60.
Maurice Phillippe: notabilizou-se pela lendária Lotus 72, dotado de suspensão com barras de torção e freio in-board.
Derek Gardner: destacou-se pela concepção do Tyrrell P34, o único F-1 de seis rodas, vencedor do GP da Suécia de 1976.
Mauro Forghieri: inovou com a Ferrari 312 T2, em 1975. A novidade estava no câmbio transversal. Foi o carro do bicampeonato de Niki Lauda e do de construtores da Ferrari em 1975 e 1977.
Gordon Coppuck: fez o McLaren M23, recordista de longevidade, campeão com Emerson Fittipaldi (1974) e James Hunt (1976).
John Barnard: criou os McLaren MP em 1982 e o famoso Benetton B189, com o nariz de tubarão, em 1989, linha precursora dos bicos empinados dos modelos 2000.
Patrick Head: atual sócio de Frank Williams, assinou a série dos FW, cuja obra-prima foi o modelo FW14, de 1992, equipado com suspensão ativa.
Adrian Newey: o mago da aerodinâmica, projetou os carros da Williams e da McLaren que dominaram a década de 90.

CLASSIFICAÇÃOEQUIPES

POS EQUIPE PTS
Ferrari 172
McLaren 151
BMW Sauber 135
Renault 80
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