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Nelson Piquet, fase dois

Depois de um início de temporada turbulento, Nelsinho Piquet comemora os bons resultados

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Por Livio Oricchio
Fotos: Photo 4

Vários títulos no kart, mais jovem campeão da F-3 Sul-Americana (aos 17 anos, em 2002), recorde de precocidade também no título da F-3 britânica (19 anos, em 2003), vice da GP2 em 2006, disputando o título até o fim com Lewis Hamilton. Mais: patrimônio genético respeitabilíssimo. Nelson Angelo Piquet, o Nelsinho, é filho do tricampeão mundial Nelson Piquet.

Mas todo esse retrospecto não impediu Nelsinho de afirmar, depois de meia temporada na Renault sem resultados marcantes: “A Fórmula 1 é bem difícil. Você tem de decidir uma porção de coisas complexas, ali, na hora, e tem de dar certo, como nos treinos de classificação, por exemplo. E, se você não larga bem, esquece: na F-1 quase não se passa ninguém”. Pois Nelsinho precisou de meia temporada para responder melhor ao imenso desafio da categoria.

Curiosamente, o piloto dá a entender que sua expectativa não era distante do que ocorreu. Da abertura, na Austrália, em março, ao GP do Canadá, sétimo do calendário, em junho, Nelsinho não conseguiu marcar pontos. “Sempre foi assim na minha carreira. Meu primeiro anos nas várias categorias que disputei foi de aprendizado, e no ano seguinte, se não fui campeão, acabei em segundo, como na GP2.”

Tudo começou a mudar no GP da França, oitavo do ano. Na casa da Renault, Nelsinho conseguiu o que define como “encaixar todas as peças” e terminou em sétimo. “Eu acho que realizei melhores trabalhos em outras provas, mas em Magny-Cours minha posição no grid não era tão ruim [11º] e nada impediu que eu pudesse manter bom ritmo de corrida.”

Com sinceridade desarmante, Nelsinho explica as dificuldades: “Tirar tudo de si, do carro e dos pneus na tomada de tempo. Você deixa os boxes e tem um jogo de pneus para marcar tempo, a fim de tentar passar à fase seguinte. E, alguns minutos apenas mais tarde, outro jogo. Quase tudo na F-1 é decidido ali”.

De novo, parece ainda não ter sido contaminado pela política de não se expor demais. “Falta um pouquinho de confiança para poder fazer aquela curva daquele jeito, acreditar que os pneus lhe darão aderência, escolher a melhor hora de deixar os boxes, com quanta gasolina sair. E isso vem com o tempo.”

Os muitos recursos, hoje, da Fórmula 1 oferecem um raio X completo do desempenho dos pilotos. “Sempre me considerei um piloto veloz em curvas de alta. E sou. Mas, quando observo o trabalho de meu companheiro [Fernando Alonso] e vejo que ele consegue ser um pelinho mais rápido, compreendo que os limites da F-1, ao menos dos campeões, são maiores do que imaginamos.” Nelsinho não deixa dúvida do que deseja: “Chegar e ultrapassar esses limites”.

Virada
Apesar de jurar que não mudou muito, o melhor resultado de Nelsinho até a décima etapa, no GP da Alemanha, o transformou num profissional mais sereno – e, com isso, está podendo expor mais seu talento. A corrida de Hockenheim pode ser considerada o instante da virada em sua trajetória na F-1. Largou em 17º e terminou em segundo.

“O maior ensinamento foi que o fim de semana termina na bandeirada”, disse, rindo, depois do pódio. “Sábado à tarde eu era um homem tenso, frustrado. No dia seguinte, vivi meu momento mais feliz na F-1 até então. Assim que subi no pódio, me lembrei do meu pai, de todos que trabalharam para eu chegar lá. E justo naquele dia não tinha ninguém dessa turma. Eu precisava dividir minha felicidade. Voltei para o motor home e fui ligando para todos, um por um.”

Não faltou quem creditasse o pódio à sorte, apenas. Afinal, o safety car entrou na pista no exato instante em que faria seu pit stop. A reação veio de dentro da própria equipe. Flavio Briatore, diretorgeral da Renault e seu empresário também, respondeu: “Estava no lugar certo na hora certa, ok. Mas depois pilotou com extraordinária precisão, a ponto de manter atrás de si pilotos como Felipe Massa e Heikki Kovalainen. Nelsinho tem mais méritos nessa conquista do que muitos pensam.”

Silverstone: despedida da má fase

No GP seguinte, outra boa performance de Nelsinho: sexto na Hungria, depois de largar em décimo. A virada se deu em instante mais que oportuno. Briatore deve lhe dizer até o fim de agosto se seu contrato será renovado ou se vai estar livre para procurar outra equipe. Se continuasse sem conquistar pontos, como nas primeiras etapas, é bem provável que fosse dispensado. Briatore tinha a referência de Alonso.

Além disso, os franceses preparam com cuidados quase laboratoriais a formação de um novo representante do país nas pistas. Trata-se de Romain Grosjean, quarto na GP2 na temporada de estréia. E o francês poderia ser, eventualmente, uma opção para a escuderia, também francesa.

Empregado
Essa “não-pressa” de Nelsinho em corresponder ao que se espera dele parece ter uma única origem: sempre correu em suas próprias escuderias. O pai montou times do kart à GP2. Como pôde planejar sua permanência nas categorias, estabeleceu como meta para o primeiro momento absorver ensinamentos e conquistar alguns resultados, mas no segundo lutar com tudo pelo título.

Não foram poucos os que lhe disseram: “Nelsinho, você é um empregado. Assim como seu chefe, Briatore, cuja definição a respeito da sua continuidade ou não na F-1 obedece a um critério técnico. E um piloto que não conquista pontos não tem espaço nesse universo ultracompetitivo”.

A opinião de Nelsinho é contrária à da maioria: correr sempre no próprio time não condiciona o que faz hoje na F-1. “A diferença é que, se eu tivesse pilotado para as equipes que já existem, eu não teria possibilidade de conduzir os rumos que acredito fossem os melhores. Como fiz e, não dá para negar, deu certo. Pagaria a eles e teria de acatar tudo.”

E também desmente a impressão de gente até da antiga na F-1, que relacionou suas dificuldades iniciais com o fato de ser filho de Piquet e talvez pressionar- se para corresponder ao que todos e o próprio pai esperam dele. “Zero”, diz Nelsinho. “Se existe algo que não me atinge é isso. Aprendi, quando vim para o Brasil, com 8 anos, a lidar com essa situação.” Ele é filho da holandesa Sylvia. Nasceu em Heidelberg, na Alemanha, próximo de Hocken heim, onde seu pai estreou na F-1, em 1978.

As incertezas sobre sua estabilidade emocional foram reforçadas pelo comportamento de Nelsinho durante as entrevistas, em especial nas primeiras corridas. Era comum jornalistas europeus perguntarem aos colegas brasileiros se o filho de Piquet lembrava o pai também na relação turbulenta com a imprensa. “As pessoas confundem”, respondeu o piloto da Renault. “Eu sou tímido e filho de quem sou, daí acharem que sou isso e aquilo.” A maior queixa era sua aspereza, por vezes, frente a algumas perguntas.

A fase de resultados e de estar sempre muito próximo de Alonso nos treinos e até nas corridas, como a que vive agora, está ajudando a melhorar também esse lado da sua experiência na F-1. Nelsinho estende a mesma serenidade das pistas para as relações com os profissionais da mídia. Apesar de continuar afirmando que não mudou.

Mas e o pai, o que pensa? “É a vida dele. Eu acredito na sua capacidade. Não me cabe ficar dando palpite”, afirmou Nelson. E Nelsinho confirmou que pouco fala com o pai a respeito de F-1. “Depois do pódio de Hockenheim, tudo o que ele me disse foi ‘parabéns’ e já mudamos o assunto.” Talvez por Nelson saber a importância de compreender o que lhe é cobrado na F-1 e ter consciência de que só o piloto, mesmo, para se estruturar e responder à altura.

CLASSIFICAÇÃOEQUIPES

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